Fome como Política: Diagnosticando o Poder da Escassez

No começo dos anos 1930, exames médicos rotineiros nas fábricas de Recife levaram um jovem médico a perceber que a força de trabalho da cidade estava sendo lentamente morta pela fome. Quando apresentou essa conclusão aos donos das usinas, em vez de debaterem seus achados, eles simplesmente o demitiram. “Sei o que meus pacientes têm”, disse Josué de Castro ao sair. “Mas não posso curá-los porque sou médico, e não diretor aqui. A doença dessa gente é a fome” [1].
Esse momento definiu a obra de sua vida. Nascido em Recife, Castro cresceu entre abundância e escassez — seu pai, um senhor de terras que fugira da grande seca de 1877, mantinha uma mesa farta enquanto negava apoio à mãe, de quem estava separado. Logo além da casa da família, às margens do rio Capibaribe, ficavam os mangues, que ele mais tarde chamaria de sua verdadeira universidade. Ali, homens e crustáceos compartilhavam uma simetria sombria na lama — um se alimentando do outro, e o outro retribuindo o favor. “Eram seres humanos feitos de carne de caranguejo”, escreveu ele [2].
A medicina veio por acaso — ele queria ser psiquiatra —, mas o episódio da fábrica cristalizou a questão como social, e não clínica. Em 1932, ele realizou um levantamento sobre as condições da classe trabalhadora em Recife, publicado três anos depois como Vida das classes operárias do Recife, o primeiro grande estudo do país sobre as condições de vida dos operários. Ao vincular diretamente a dieta à produtividade, à moradia e aos salários, e ao rejeitar as explicações raciais e climáticas então em voga1, transformou sua observação pessoal em algo mensurável.
A pesquisa de Castro não surgiu no vazio. O Brasil já caminhava lentamente para as leis trabalhistas, e o estudo veio a público em meio a esse processo. Enquanto os trabalhadores lutavam por mais direitos, o país se tornara membro fundador da Organização Internacional do Trabalho em 1919; e, já em 1928, a organização recomendava estruturas de salário mínimo aos Estados-membros. No início dos anos 1930, Vargas criou o Ministério do Trabalho para estabelecer padrões básicos e proteções salariais, que foram codificados na Constituição de 1934. Para melhor compreender o custo de vida e a inflação, o Ministério passou a publicar regularmente índices de preços de alimentos, e uma nova lei implementou a promessa constitucional do salário mínimo em 1936 [3].
Do outro lado do país, a Escola Livre de Sociologia e Política de São Paulo realizou em 1934 um estudo com 221 famílias da classe trabalhadora, das quais 75 mantinham diários detalhados de despesas. O levantamento mostrou que 27% dos entrevistados não ganhavam o suficiente para garantir 2.600 calorias diárias — o mínimo considerado necessário para a sobrevivência [4]. Embora os números não fossem bons, os paulistas estavam em situação bem melhor do que os recifenses, que sobreviviam com pouco mais de 1.600 calorias em média, segundo o estudo de Castro.
O decreto do salário mínimo mencionado anteriormente levou em conta a nutrição, e uma lei subsequente de 1938 criou a cesta básica de 13 itens, composta por carne, leite, feijão, arroz, farinha, batata, pão francês, café, banana, tomate, açúcar, óleo e manteiga. A cesta não era apenas um conceito nutricional: juridicamente, os custos dos alimentos não podiam ficar abaixo do valor da cesta.
No início dos anos 1940, Castro — o médico demitido por nomear a fome — já era um insider institucional, comandando parte da resposta oficial. Fundou a Sociedade Brasileira de Nutrição, dirigiu o SAPS — o programa de assistência social do Estado — e criou uma rede de restaurantes populares subsidiados. Os próprios restaurantes, com cardápio fixo e refeições balanceadas, eram um reconhecimento direto de que o salário mínimo não bastava para cobrir os custos básicos de alimentação.
O primeiro desses restaurantes subsidiados abriu em 1939 no Rio de Janeiro, sob supervisão direta de Castro. Em 1946, a rede contava com 42 estabelecimentos em todo o país, e a unidade da Praça da Bandeira servia 5.000 trabalhadores por dia [5]. O Estado subsidiava, na prática, o abismo entre salários e cesta básica por meio de refeições baratas. Ao mesmo tempo, um decreto de 1939 já exigia que empresas com mais de 500 funcionários oferecessem um espaço dedicado às refeições.
No entanto, toda essa estrutura estatal era profundamente desigual por projeto. O valor real do salário mínimo só foi definido em 1940, e mesmo assim dividido primeiro em 50 sub-regiões, depois agrupadas em 14 faixas salariais [6]. Trabalhadores no Rio de Janeiro recebiam quase duas vezes e meia o salário daqueles no Nordeste — ou seja, exatamente a região sobre a qual Josué de Castro escrevia, onde famílias sobreviviam com apenas 1.600 calorias diárias, tinha o piso salarial mais baixo. Essa era a enorme distância entre política e realidade, traduzida em geografia. Só em 1984 o salário mínimo seria unificado em todo o território nacional.

Em 1946, Castro publicou sua obra-prima, Geografia da Fome, que fez pelo país o que seu levantamento de 1932 fizera por Recife: mapeou a fome como uma condição estrutural, endêmica à maneira como o Brasil organizava a terra, o trabalho e a comida. No livro, dividiu o país em cinco grandes regiões geográficas, categorizadas por dieta e deficiências nutricionais. O padrão frugal, mas equilibrado, do Extremo Sul (incluindo o Sudeste) e do Sertão Nordestino (fora dos períodos de seca) contrastava fortemente com a fome crônica na Amazônia e no Nordeste Açucareiro [7].
Ali, as melhores terras agrícolas da região estavam presas a uma monocultura mantida por uma classe de proprietários sem qualquer incentivo para diversificar. As pessoas passavam fome em terras férteis, e o clientelismo transformava a fome num arranjo político, e não num mero destino geográfico.
Em alguns momentos, o governo ia ainda mais longe. Em 1932, criou sete campos de concentração no Ceará para impedir que os migrantes famintos, conhecidos como retirantes, tomassem as cidades. Em abril, mais de 72 mil pessoas já haviam sido registradas nos campos, além de outras 1.800 confinadas na capital, Fortaleza.
Em vez de oferecer ajuda, o Estado recorreu ao internamento disciplinar para manter os famintos fora de vista. Como observavam friamente os relatórios da época, apesar do influxo de recém-chegados, “não se vê, entretanto, um só retirante nas ruas da cidade”, pois nos campos “os emigrantes são obrigados a se banhar diariamente, a cortar os cabelos etc.” [8]. Tratar o deslocamento em massa como um problema de ordem pública resultou apenas em contenção emergencial.
Embora Castro atuasse de dentro do governo, todo o sistema era frágil. A estrutura política de Vargas desmoronou com sua queda em 1945, mas o SAPS sobreviveu sob diferentes governos por mais de vinte anos, até ser extinto formalmente pela ditadura militar em 1967. O mesmo regime que fechou o SAPS exilou Castro em 1964, silenciando tanto a instituição quanto o homem que a havia construído.
Com Castro e suas redes de proteção alimentar afastados, o Estado desmontou a maquinaria salarial: os salários reais caíram 24% entre 1982 e 1990, à medida que a ditadura subestimava sistematicamente a inflação nos reajustes, corroendo o poder de compra dos trabalhadores.
No entanto, um marco surgiu em 1995: a estabilização do Plano Real finalmente permitiu que o salário mínimo voltasse a comprar uma cesta básica — alcançando o piso de sobrevivência definido em 1938, quase sessenta anos antes. Essa estabilização pavimentou o caminho para políticas sociais focalizadas, inspiradas nos experimentos locais do Bolsa Escola a partir de 1995. O movimento culminou na estratégia Fome Zero e no lançamento do Bolsa Família, sob Lula, em 2003.
Décadas depois do exílio de Castro, seu argumento central tornou-se política de Estado permanente — provando que a fome exigia investimento estrutural, e não apenas triagem emergencial. Foi um arco que tirou o Brasil do mapa da fome da ONU em 2014 e resultou num salário mínimo que, em 2026, consegue comprar 1,8 cestas básicas.
A distância entre esses dois momentos — os campos de concentração e as transferências de renda — pode ser medida na vida de uma única pessoa. Em 2016, um jornalista que visitou as ruínas do campo de concentração de Senador Pompeu, no Ceará, encontrou uma moradora rural, Maria Danúbia de Souza, vivendo a poucos metros das paredes de pedra com seus seis filhos, sem saber a idade deles nem mesmo a própria. Beneficiária do Bolsa Família, ela nunca tinha ouvido falar dos campos, enquanto sua humilde casa caía aos pedaços e suas plantações de milho e feijão não vingavam naquele ano [9]. O Estado havia abandonado havia muito os currais de internamento, mas as ruínas e a seca permaneciam. Em algumas regiões, a terra ainda pede mais do que pode dar, mas os cartões de benefício que acabaram substituindo os campos muitas vezes fazem a diferença.
Fontes
Projeto História — Trabalho e adoecimento no Governo Vargas (Paraíba, 1930-1945), pg 365
Projeto Memória — Josué de Castro: Biografia, 2004
Dieese — A história do trabalho e do salário mínimo no Brasil
Revista do Arquivo Municipal de São Paulo — Padrão de vida dos operários da cidade de São Paulo, June 1935, pg 115
Physis: Revista de Saúde Coletiva — Restaurante popular: a política social em questão, 2018
Banco Central do Brasil — Sumário Metodológico, 2002
Revista Pesquisa Fapesp — As raízes da fome, 2023
História, Ciências, Saúde – Manguinhos, Josué de Castro e as metamorfoses da fome no Brasil, 1932-1946, 2021
Estadão — A seca de 1932: Memória de um campo de concentração, 2016
Ele contestou publicamente Gilberto Freyre, que havia criticado sua tese nutricional de 1932 sem, argumentava Castro, possuir o embasamento científico para isso.↩