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O preço de não ler: O sistema que fez do Brasil uma nação de leitores

No início dos anos 1970 no Brasil, uma explicação comum para os baixos índices de leitura era a seguinte: os livros eram caros porque poucos liam, e poucos liam porque os livros eram caros. Um problema de distribuição ainda sem solução se disfarçava de indiferença cultural.

Criado em 1973, o Círculo do Livro (CdL) foi a tentativa mais bem-sucedida de romper esse ciclo. Foi, na verdade, o maior clube de “livro do mês” do Brasil no século XX. Formado pela gigante alemã Bertelsmann e pela editora brasileira Abril, operava como um serviço de assinatura por correspondência no qual seus 800 mil membros liam até quatro milhões de títulos por ano. Isso era possível graças a catálogos enviados regularmente pelo correio, nos quais os assinantes pagavam uma taxa de adesão e precisavam escolher ao menos um livro, dentre uma seleção de mais de 500 títulos, a cada poucos meses para permanecerem ativos. A revista da casa — ou melhor, o “magalog” — Revista do Livro também estava incluída na assinatura, gratuitamente, e funcionava ao mesmo tempo como catálogo de livros.

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Com preços que superavam os das livrarias, o CdL se espalhou rapidamente pelo Brasil na década de 1980, contando com 2 mil vendedores que entregavam os livros e recolhiam os pagamentos (caso o leitor não quisesse recebê-los pelo correio). Nos anos 1990, poucos anos antes de encerrar as atividades, a empresa chegou a expandir para a venda de CDs, com um catálogo chamado The Music Circle.

Então como o CdL conseguia vender livros mais baratos? Em termos simples: economia de escala. Segundo o Jornal do Brasil, o custo típico para o leitor em preços de 1974 — tomando como exemplo um livro da famosa coleção Civilização Brasileira — era de Cr$19, contra o preço normal de Cr$25 numa banca de jornal. Em 1988, enquanto a edição em brochura do romance A Fogueira das Vaidades custava ao leitor médio cerca de Cz$12.000, um livro de arte com capa dura saía por apenas Cz$2.900 via assinatura.

As editoras da época estavam presas ao modelo financeiro padrão do setor, e o CdL soube tirar proveito disso. Para a editora média, definir o preço de venda passava por multiplicar o custo industrial por cinco. Um livro que custava Cr$10 para ser produzido era simplesmente vendido por Cr$50, divididos de forma mais ou menos igual entre custo de produção, autor, despesas administrativas e lucro do editor. Além disso, como o CdL conseguia prever tanto as vendas quanto o volume de impressão com base nos pedidos, seus estoques não ficavam parados por tempo indefinido. As editoras comuns, por sua vez, precisavam tratar o estoque não vendido como parte de seus ativos tributáveis, numa época em que a alíquota do imposto de renda corporativo era de 30% sobre os lucros.

Isso explica em parte o sucesso do CdL — não apenas como editora, mas como destaque entre os clubes do livro. Outros motivos incluem seu tamanho: no final dos anos 1970, já contava com gráfica própria, 13 filiais pelo país, 900 funcionários e publicava entre 80 e 100 títulos por ano. Até poetas — normalmente de venda difícil — vendiam bem através do CdL.

O Círculo do Livro, porém, não foi o primeiro do gênero. A linhagem dos clubes do livro no Brasil remonta a 1941, quando Mário de Andrade, Cândido Portinari e Aníbal Machado fundaram um clube de poesia, seguido, um ano depois, pela Sociedade dos Cem Bibliófilos do Brasil, que publicou 23 títulos antes de encerrar em 1968. Outros dois clubes, O Livro do Mês e o Círculo Literário, surgiram na mesma década, e o Clube do Livro de Mário Graciotti — que mais tarde tentaria competir com o CdL — apareceu em 1943 [2].

Ainda que esses clubes tenham encontrado seu público no Brasil, a ideia por trás deles quase sempre teve origem na Europa, onde, é claro, a imprensa foi inventada. Mesmo no caso do Círculo do Livro, foi a editora alemã Bertelsmann que buscou outros mercados para replicar o sucesso obtido na Alemanha, na Espanha1 e em Portugal. A Sociedade não foi diferente, já que também se inspirou em práticas europeias. Já o segundo clube do gênero era formado por 100 figuras proeminentes da época, que se reuniam para produzir grandes obras da literatura brasileira, ilustradas por artistas renomados. Diferente dos clubes modernos, abertos ao público, a Sociedade imprimia apenas exemplares suficientes para seus membros distintos.

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Um ano antes de o Círculo do Livro entrar formalmente no mercado, em 1973, o Jornal do Brasil publicou uma pequena matéria intitulada “Sair do Círculo”, que refletia uma consciência crescente sobre os limites estruturais do mercado editorial brasileiro. Em vez de tratar os baixos índices de leitura como uma falha cultural, a matéria apontava para os mecanismos que mantinham os livros fora do alcance de boa parte da população. Na mesma matéria, o jornal destacava um experimento então emergente em São Paulo, chamado Jornalivro2, que oferecia aos leitores um novo título a cada quinze dias — clássicos e obras contemporâneas — por apenas dois cruzeiros (Cr$2). Sua receita era simples: “um livro em formato de jornal, vendido em banca, ao preço de um jornal”. Já em sua segunda edição, o projeto havia distribuído a marca promissora de 100 mil exemplares.

Os números que negócios como o Jornalivro alcançavam no início dos anos 1970 — e que o CdL logo alcançaria também — lançam luz sobre o verdadeiro tamanho do público leitor brasileiro, ao menos dentro da bolha daquele tempo e lugar.

As culturas de leitura raramente desaparecem por conta própria. Elas enfraquecem quando os caminhos que ligam leitores a livros se tornam estreitos, caros ou frágeis. No caso do Brasil, a demanda existia bem antes de ser formalmente reconhecida, e ela se manifestava sempre que preço, distribuição e incentivos se alinhavam ao cotidiano das pessoas. O que parecia uma deficiência cultural era, em grande parte, uma questão de acesso.

O Círculo do Livro funcionou porque tratou a leitura como um problema logístico, não moral. Ao reduzir custos, prever a demanda e ir ao encontro dos leitores onde eles já estavam, revelou um público disposto a ler amplamente, desde que lhe dessem os meios para isso3. Quando esse sistema desapareceu, desapareceram também as condições que haviam tornado a leitura em larga escala algo comum.


Fontes

  1. Gazeta do Povo — Círculo do Livro, April 22, 2015

  2. Comunicom ESPM — Círculo do Livro: Os Rastros de Memória do Maior Clube de Assinatura de Livros Brasileiro no Séc. XX, 2021

  3. O Globo — Cem Bibliófilos do Brasil: Abertura, September 21, 2022

  4. Revista Tempo & Argumento — Entre livros e memórias: a web como lugar de nostalgia do Círculo do Livro, 2021


  1. A versão em espanhol, Clube de Lectores, fechou apenas em 2019

  2. Aparentemente foi fechado pelo aparato de censura da ditadura brasileira e parece ter reaberto como um jornal estritamente político no início da década de 1980

  3. Entrevista de rua com brasileiros comuns sobre seus hábitos e preferências de leitura, Rio de Janeiro [YT, 1976, 3m39s]. A fluência, a calma e a variedade de títulos citados por entrevistados é seu próprio tipo de evidência