Brazil in Beta

Offshore e em atraso: o Rio-Dólar na era da desdolarização

Numa época em que os poderosos sonhavam com voos mais rápidos que a velocidade do som no Concorde, o jornalista Paulo Rehder ofereceu uma visão do futuro financeiro num artigo de 1971 para a Manchete [1]:

Um Boeing-747 da VARIG aterrissa no aeroporto supersônico do Galeão. Um de seus passageiros, embarcado em Nova lor-que, é Mr. Strong. Trata-se, à primeira vista, de um americano comum. Sua bagagem parece a de um turista: uma mala executiva cheia de documentos e uma pequena valise de roupas. Poucos notam a sua presença. Um diretor de banco, acompanhado de uma loura secretária bilingüe, o espera com uma limusine preta e, antes mesmo de deixá-lo no Rio-Hilton, leva-o à sede do banco. E que Mr. Strong traz um depósito em dólares, para a sua conta n.° 2.004. Está interessado em aplicá-los no mercado latino-americano, através do fundo de investimentos do banco. Dois dias depois, em companhia das mesmas pessoas Mr. Strong retorna ao aeroporto e toma um avião para Cingapura, onde também tem negócios. Deixa no Rio as saudades da secretária e 100 milhões de dólares. A loura retoca a maquilagem e o diretor consulta o relógio. Lá fora, a limusine preta, com o chofer fardado, espera. É que não tardará a chegar Dom Paco Jimenez, que vem da América Central, trazendo cinquenta milhões de dólares. Esta é uma possível cena da vida futura, no Rio de Janeiro. Ainda não acontece, pois não temos o aeroporto supersônico, nem o Rio-Hilton está inaugurado. Mas tudo isso virá a seu tempo, como poderá também vir o Rio-dólar, sonho das classes produtoras cariocas.

O chamado Rio-Dólar (originalmente batizado de Latin-dollar) permitiria que instituições financeiras operando na Guanabara aceitassem depósitos em moeda estrangeira de não-residentes. O instrumento financeiro rivalizaria tanto com o Euro quanto com o Asia-dollar, transformando a Guanabara numa Londres, Frankfurt, Zurique ou Singapura. Como o eurodólar — dólares americanos mantidos offshore em bancos estrangeiros — esses depósitos circulariam livremente com menos regulamentação, desempenhando papel relevante nos mercados globais ao facilitar o comércio internacional, empréstimos e investimentos.

Em meio ao "milagre econômico" brasileiro de 1968 a 1973, a proposta encontrou terreno fértil. O efêmero Estado da Guanabara — compreendendo o Rio de Janeiro e existindo de 1960 a 1975 — buscava recuperar parte de sua influência política e econômica perdida após Brasília se tornar a menina dos olhos do país. Com esses dólares denominados em moeda americana, banqueiros e empresários de toda a América Latina poderiam investir em multinacionais ou oferecer empréstimos de curto prazo com taxas de juros favoráveis.

A ideia teve impulso institucional real, como visto num artigo do Jornal do Brasil de 1974 sobre o banco estatal de investimentos Copeg apoiando formalmente a criação do centro financeiro internacional do Rio [2]. O Conselho Monetário Nacional, o mais alto órgão financeiro do Brasil, também estava posicionado para aprovar a medida. Menos de uma década depois, em 1981, o apoio à ideia ainda era forte o suficiente para um projeto de lei totalmente redigido ser apresentado, endossado pelo XIII Congresso Nacional de Bancos [3]. O Brasil estava fundo em sua crise da dívida, Lima já tinha o ARLABANK1 e Nova York estava criando sua própria zona offshore. Situado entre a Europa e a América do Norte, o Rio não era uma ideia absurda em termos globais — era uma aposta razoável numa categoria de centro financeiro que estava em franca expansão pelo mundo.

Logo após a proposta do Rio-Dólar, toda a boa vontade e promessa contidas no milagre econômico do país evaporaram. A crise do petróleo de 1973 dobrou o déficit em conta corrente praticamente da noite para o dia, e o aumento da dívida externa e da inflação fizeram o resto — a dívida externa bruta do Brasil disparou de US$ 4 bilhões em 1965 para mais de US$ 100 bilhões em 1984 [4]. O momento era catastrófico, mas o problema mais profundo pode ter sido estrutural: centros offshore não tendem a surgir em economias grandes e complexas — eles se enraízam em entrepôtos, monoculturas financeiras e entrepostos coloniais [5]. O Brasil nunca foi realmente esse tipo de lugar. E ainda assim a ideia se recusou a morrer — ainda em 1982, com a crise da dívida já se instalando, o Ministro da Fazenda do Brasil ainda abria seminários sobre a viabilidade do Rio-Dólar [6].

Longe de ser uma fantasia tecnocrática obscura da Guerra Fria, o Rio-Dólar pode ser visto como um empreendimento proto-BRICS. Afinal, o instrumento teria criado um centro financeiro alternativo fora do núcleo tradicional EUA–Europa, elevando o Brasil de uma economia regional a um intermediário financeiro de importância global.

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[famoso slogan nacionalista (1969-1974), associado ao “milagre econômico”]

As condições voltaram. Um novo choque do petróleo, a dominância volátil do dólar e um debate crescente sobre desdolarização recriaram algo parecido com a instabilidade que tornou o Rio-Dólar urgente pela primeira vez. A resposta do Brasil desta vez parece diferente — Drex, a proposta do sur, o aprofundamento da liquidação em yuan — mas a questão de fundo é a mesma que o Sr. Strong de Paulo Rehder estava respondendo quando desembarcou daquele Boeing em 1971: para onde vai o dinheiro quando ele não quer passar por Nova York? Se olharmos para o que fez Singapura funcionar — sistema bancário eficiente, pessoal qualificado, posição de entrepôto, porto franco, localização estratégica na cadeia de fusos horários da Ásia — o Rio agora cumpre alguns requisitos que não conseguia no final dos anos 1970 e início dos 80. Infraestrutura de comunicações, sofisticação bancária e posição de fuso horário entre a Europa e Nova York são apostas muito mais seguras hoje. Estabilidade monetária, ambiente regulatório e vontade política continuam sendo questões em aberto. O Rio não é Singapura, mas também não é o Rio de 1982.

O Rio-Dólar provavelmente nunca foi, de verdade, uma questão de se tornar a próxima Singapura. Como uma pequena cidade-estado que se tornou útil a economias maiores, Singapura funcionou porque precisava. O Brasil nunca esteve nessa posição — buscava, em vez disso, peso suficiente para moldar os termos pelos quais o capital circulava pela região, uma ambição que acabou procurando outros veículos. Os vários instrumentos com os quais o Brasil vem experimentando nos últimos anos são todas tentativas de responder à mesma questão subjacente que o Rio-Dólar colocava: se um país do tamanho e da complexidade do Brasil pode ter algum poder de decisão num sistema que não desenhou.

Da visão de futuro, a única coisa ainda de pé é o Rio Hilton, inaugurado em 1975. A Guanabara foi incorporada ao estado do Rio, a Varig foi a pique, os jatos supersônicos se mostraram insustentáveis e o Rio-Dólar nunca decolou. O Sr. Strong mudou de rota e levou seu dinheiro para outro lugar. A América Latina ainda liquida o comércio internacional em dólares, e um sistema financeiro construído em torno de uma alternativa ainda não existe. Se esse itinerário algum dia terá um destino final é, por enquanto, ainda uma passagem em aberto.


Fontes

  1. Manchete —A capital do Rio-Dólar, April 17, 1971

  2. Jornal do Brasil —Copeg vai apoiar implantação de centro financeiro do Rio, August 16, 1974

  3. Diário do Congresso Nacional —ANO XXXVI - N9 093, (Projeto de Lei N. 5.003, de 1981), August 22, 1981

  4. World Bank —International Financial Flows to Brazil since the Late 1960s, 1987

  5. UFRJ —O mercado de Euro-moedas e o Rio-Dólar, 1982

  6. FGV: Revista Conjuntura Econômica —Rio-dólar: a idéia resiste, 1982


  1. O Banco Árabe-Latino-Americano foi criado em Lima em 1977 como banco consórcio para promover a cooperação financeira e as relações industriais e comerciais entre países árabes e latino-americanos. Em 1981, mesmo ano do projeto de lei apresentado ao Congresso, o banco brasileiro BANADE recebeu o maior empréstimo sindicalizado árabe individual — de US$ 280 milhões — concedido a um tomador não árabe naquele ano.