Brazil in Beta

Paradoxo das terras raras: rico em recursos, pobre em processamento

O Brasil possui as segundas maiores reservas de terras raras do mundo — 23% do total mundial — e não consegue fazer grande coisa com isso. Das três etapas entre o minério e o produto final — mineração, processamento e manufatura — o Brasil atualmente domina apenas a primeira. Sobrecarregado pela abundância mas sem poder aproveitá-la, o país exporta matéria-prima por quase nada e importa o produto final a um preço premium.

Parece quase nonsense quando as matérias-primas para produzir a mistura química conhecida como NdPr — usada em supermagnetos que movem veículos elétricos e turbinas eólicas — existem aqui [1]. Um único motor de VE usa aproximadamente 1–2 kg desse produto final, enquanto uma grande turbina eólica requer algumas centenas de quilos, podendo chegar a mais de uma tonelada. O Brasil já está à frente do cronograma no uso de energias renováveis, muito além da maioria dos outros países — e ainda assim precisa importar os componentes que as fazem funcionar.

Isso se deve à diferença entre a quantidade de terras raras presentes num país, o volume de mineração que ocorre lá e a capacidade de refino disponível. No caso do Brasil, as respostas são: 21 milhões de toneladas; 4.000–5.000 toneladas atualmente; e zero capacidade de refino. É como ter um imenso pomar de maçãs, mas colher apenas algumas cestas por ano e não ter usina de processamento — então você exporta maçãs cruas por um preço baixo e paga caro pela torta de maçã. Não importa como você fatia, é um mau negócio.

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[Monazita na praia de Guarapari - Manchete, 1953]

No litoral do Espírito Santo, uma cidade pobre chamada Guarapari vivia do turismo de praia e da crença popular de que suas areias radioativas curavam o reumatismo. Ricas em tório, cério e lantânio, as jazidas de monazita significavam que os moradores estavam literalmente deitados sobre o futuro da energia limpa e da tecnologia avançada, sem saber ou sem se importar. Quando a Manchete — a resposta brasileira à revista Life — publicou sua reportagem de 1953 sobre o que era a maior reserva de minerais atômicos do país, o Brasil já exportava monazita bruta há mais de meio século [2].

No auge, entre 1904 e 1910, cerca de 4.000 a 6.000 toneladas eram exportadas anualmente — volume semelhante ao de hoje. Em meados do século, metade das reservas conhecidas de Guarapari já havia sido enviada ao exterior. Como calculou o deputado Hélio Cabal à época, o tório contido naquelas areias exportadas representava o equivalente energético a 300 anos de consumo brasileiro — vendido entre US$ 190 e US$ 900 a tonelada, ainda assim com prejuízo.

Na década de 1950, a batalha entre processamento e exportação bruta já estava em curso. Das duas empresas dominantes — Orquima e Mibra — a primeira pressionou com sucesso o governo para proibir as exportações de areia de monazita bruta, argumentando que a prática era "criminosa". A lei passou, mas as empresas simplesmente dividiram o litoral entre si. A fiscalização governamental se resumia a um inspetor que visitava a cada seis meses vindo de São Paulo e a um guarda encontrado dormindo sobre os sacos de mineral. O Brasil escolheu a política certa no papel e ainda assim terminou com vastas reservas mas quase nenhuma capacidade de processamento doméstico.

Uma reportagem de acompanhamento em 1956 na mesma revista revelou um detalhe ainda mais contundente: por meio da Orquima, o Brasil havia se tornado o primeiro país do mundo a separar elementos de terras raras em escala industrial, exportando európio a US$ 8.000 o quilo como material experimental para compradores estrangeiros. A mesma reportagem publicou o que chamou de uma "pequeníssima manchete triste" — o Brasil não tinha recursos técnicos e financeiros para usar seu próprio tório. Nem mesmo num futuro próximo [3].

A dependência histórica do Brasil das exportações de commodities brutas não é acidental. Pesquisas que reconstroem o PIB brasileiro desde 1574 sugerem que o modelo de extração-exportação é a configuração padrão da economia, anterior à independência por séculos [4].

As terras raras são a mais recente iteração de algo que o Brasil vem fazendo com o minério de ferro e a soja há décadas. O país é o maior exportador mundial de soja e o segundo maior exportador de minério de ferro, mas nenhum dos dois setores jamais subiu completamente a cadeia de valor domesticamente. A Vale embarca minério de ferro para o exterior e importa aço; o Brasil exporta soja bruta e recompra os produtos processados — ração animal, óleo de cozinha, alimentos industrializados. Como diz o ditado brasileiro — recentemente invocado pelo economista Tony Volpon — o Brasil não perde uma oportunidade de perder uma oportunidade [5].

Segundo o Valor Internacional, há 18 projetos de terras raras em desenvolvimento no Brasil — número que dobrou nos últimos oito meses. A australiana Meteoric Resources planeja processar 6 milhões de toneladas por ano em Poços de Caldas, produzindo 14.000 toneladas de óxidos de terras raras, com uma fase de separação subsequente de US$ 300 milhões prevista. Em Goiás, a canadense Aclara Resources mira inicialmente 4.300 toneladas anuais, com uma unidade de separação a ser construída nos EUA ou no Brasil. Também em Poços de Caldas, a australiana Viridis Mining tem como meta 9.400 toneladas de óxidos de terras raras por ano. Enquanto as três ainda aguardam licenças ambientais e planejam iniciar operações em 2028, as empresas australianas pretendem evitar totalmente tecnologia, componentes e investimentos da China [6, 7].

Estar associado à China, do ponto de vista comercial, pode tanto vincular uma empresa ao país quanto afastar outras nações do envolvimento. Atualmente, a China controla 90% de toda a capacidade de refino de terras raras e 70% de sua produção. O país é frequentemente acusado de "dumping" — prática comercial desleal em que uma empresa ou país vende um produto em mercados estrangeiros a um preço abaixo do que cobra internamente, ou até abaixo do próprio custo de produção. No contexto das terras raras, a China tem sido repetidamente acusada dessa prática graças a subsídios estatais, regras ambientais frouxas e à capacidade de empresas estatais de absorver prejuízos. Isso torna quase inviável economicamente qualquer projeto de refino ocidental ou brasileiro, e ajuda a explicar por que a produção brasileira responde por menos de 2% do total global.

Apesar desse ambiente global desafiador, o Brasil tem metas ambiciosas de energia limpa. De acordo com um relatório da IRENA de 2025, o país pretende expandir as renováveis para cerca de 85% de sua matriz elétrica até 2034 [8]. Sem capacidade de processar seus próprios elementos de terras raras domesticamente ou uma política nacional determinada que afirme soberania sobre toda a cadeia de valor, o Brasil corre o risco de continuar no lado perdedor da transição energética. A ideia por trás de propostas como a TerraBras¹ — que o ministro da Indústria, Márcio Elias Rosa, freou — é exatamente essa: garantir que o que está no solo brasileiro pertença antes de tudo ao Brasil, em vez de ser controlado por empresas estrangeiras ou permanecer na fase de exportação bruta [9].

Em termos de política pública, a Câmara dos Deputados aprovou recentemente um projeto de lei criando a Política Nacional de Minerais Críticos e Estratégicos (PNMCE), que agora segue para o Senado [10]. O projeto estabelece fortes incentivos para subir na cadeia de valor: um fundo garantidor de até R$ 2 bilhões e R$ 5 bilhões em créditos tributários, escalonados entre 2030 e 2034, para empresas que processem e industrializem terras raras e outros minerais críticos dentro do Brasil.

Nesse contexto, Julio Nery, diretor de assuntos minerais do Instituto Brasileiro de Mineração, observa que o BNDES vem ampliando o financiamento para empresas de mineração. Os mecanismos de financiamento, argumenta ele, são o principal ponto de pressão para desenvolver a cadeia produtiva de terras raras domesticamente.

Especialistas preveem que a demanda por NdPr crescerá cerca de 7% ao ano até 2030, quando o mundo provavelmente precisará de 97.000 toneladas — 50% mais do que em 2024 [11]. Os minerais estão lá. Os projetos estão chegando. A política tramita no Senado. O que o Brasil nunca conseguiu direito foi fazer os três chegarem ao mesmo tempo e na ordem certa.


Fontes

  1. G1 — Terras raras (que não são terras nem raras) colocam Brasil no meio de ‘guerra fria’ entre EUA e China; veja 10 perguntas e respostas, May 7, 2026

  2. Manchete — Salvemos Nossa Monezítica, May 16, 1953

  3. Manchete — Manchetinhos: De tório e outros minérios, September 22, 1956

  4. University of Manchester — How a nation was born: Brazilian economic growth, 1574–1920, by Guilherme Lambaisa & Nuno Palmab

  5. O Globo — Brasil na moda de novo…agora vai?, Tony Volpon, May 9, 2026

  6. Valor International — Investment in critical minerals to reach $21.3bn by 2030, May 5, 2026

  7. Valor International — Australian mining companies see Brazil as alternative to China in rare earths, September 18, 2025

  8. IRENA — The energy transition in Brazil, 2025, citing MME/EPE (2024b)

  9. Mining.com — Brazil rejects ‘TerraBras’ as US minerals deal stalls, April 24, 2026

  10. Ministry of Mines & Energy — Strategic minerals for the energy transition, November 12, 2025

  11. Aurelion Research — Brazil Rare Earths: A Rare Opportunity, February 25, 2026